Aquela sensação de estar fora da casinha

Não sei se é comum este sentimento, mas já ouvi de poucas pessoas que conheci, inclusive, eu mesma. Um incômodo, um desajuste, uma sensação de não fazer parte, de ter vindo de outro mundo, de não se encaixar ao contexto atual da nossa sociedade.

Até que descrever essa sensação parece mais fácil do que senti-la. Quando ainda era criança e posteriormente na adolescência, já sentia a diferença, nunca foi possível encontrar uma coleguinha que pensasse ou sentisse algo semelhante. Por vezes deixei toda essa angustia guardada em meu coração, acessando assim que podia, principalmente quando estava sozinha.

As outras crianças gostavam de educação física, dança, brincadeiras, eu gostava de escrever, desenhar e fechar os olhos imaginando histórias cheias de aventuras e finais felizes. A realidade sempre me pareceu tediosa, as pessoas sempre fazendo as mesmas coisas, não havia questionamento e nem mudança do fluxo. Ninguém afrontava o que já havia sido estabelecido. Tudo isso me parecia sem graça.

As pessoas queriam que eu cantasse, que eu dançasse, que eu tocasse instrumentos, que me vestisse como uma princesa, que fosse educada e gentil, que sorrisse, que sentasse direito, que comesse sem falar, que não me sujasse, que brincasse sentada e com bonecas, que jogasse bem vôlei, que fosse a aluna exemplar, que dissesse sempre “sim”, que eu esquecesse todo mal que me fizeram.

Eu sempre fui péssima na educação física, não tenho coordenação motora para dançar, não gosto de cantar e acho minha voz desafinada. Tudo que tentei aprender a tocar não aprendi. Não fui tão educada, não sentava com as pernas cruzadas, não comia sempre com a boca fechada, nem me comportava na igreja, por vezes beliscava uma coleguinha para vê-la chorar.

Não saia do carro se não quisesse ir numa festa, não comia o que não gostava e sempre me sujava escorregando morro abaixo. Sempre tive boas notas, apesar de pouco escrever nos cadernos, mas também fui para a coordenação por colar chiclete no cabelo de uma colega. E nunca fui capaz de esquecer o que os outros me fizeram de ruim.

Muitas vezes quis tentar me encaixar, mas foi em vão, como uma peça errada num quebra-cabeça eu não servia para o espaço que estava livre. Os livros me compreendiam mais que as pessoas. O silêncio me trazia mais respostas que as palavras vazias. Até que eu compreendi.

Aprendi que eu não estava errada, nem era uma estranha, muito menos uma alienígena, só era uma pessoa que não se encaixava nos padrões “normais”. Não precisei fazer todo mundo ser como eu sou, mas de aceitar que meu mundo interior é diferente da maioria. Só isso.

Por isso em vez de participar de um concurso de dança, eu escrevia poesias, em vez de desfilar, eu participava das feiras de ciência, enquanto as crianças se divertiam brincando no intervalo, eu ia para a  biblioteca ler livros que me levavam para além das fronteiras da pequena cidade que havia nascido.

Ninguém conseguirá fazer com que meus braços e pernas se encaixem numa caixa, sempre estarei fora das margens. É difícil às vezes ver que a maioria nada a favor da correnteza, e eu contra. É perturbador compreender a natureza humana quando a maioria não sabe ainda que é um ser humano. Me angustia muitas vezes o silêncio de quem deveria gritar, a ausência de quem deveria estar, a superficialidade de quem deveria ser.

Porém, eu não posso mudar as outras pessoas, não posso tornar todos os políticos honestos, não posso acabar com a miséria e desigualdade social, nem posso extinguir as guerras entre as nações e nem mesmo fazer com que cada pessoa saiba o porquê de estar aqui, agora, vivendo. Então cuido de mim, do meu eu, de quem eu me tornei. Busco fazer bem as perguntas e talvez ter uma vida inteira para responder. Posso e devo parecer estranha, pouco convencional e até mesmo maluca, mas ainda assim, essa sou eu.

Não vivo como a maioria vive, e ninguém faz ideia de como isso me deixa feliz. Agradar todas as pessoas pode ser mais pesado que muitas pedras por aí, então eu não estou disposta a fazer isso. Nunca fiz e nem pretendo, quem agrada todo mundo, quem vive sempre dizendo “sim”, “claro”, acaba se afastando dia após dia de quem realmente é.

É triste conversar com as pessoas e perceber esse vazio de si mesmas, falam de tudo, tecem teorias políticas, o preço do dólar, a vida dos astros de Hollywood, etc, mas não sabem quem são.

Não, não, obrigada! Prefiro ser a “diferentona”, a que nem sempre se comporta como a maioria, nem diz coisas que agradam a todos os ouvidos, nem é a amiga de todas as pessoas. Sou apenas eu, uma sonhadora, que voa toda noite por aí na busca eterna de encontrar sentido para cada dia da minha existência.

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