Um ser de falta

Quem nunca teve um pensamento assim: Quando eu tiver um carro… Quando eu me formar… Quando eu me casar… Quando eu tiver um filho…. Quando eu tiver uma casa… Quando eu viajar… Quando eu for promovido… Quando eu tiver uma estabilidade financeira… serei feliz.

Quando eu tiver um carro serei feliz. Quanto tempo dependendo dos pais ou mesmo de ônibus. Nada disso, agora sim, um carro para não depender de ninguém, só dele mesmo. Sentiu felicidade em sair da concessionária, acelerou, abriu os vidros, riu para o espelho, estava esplendido. Os dias seguiram e o carro já não era tão interessante, a cor sujava demais, a potência deixava a desejar e todos já tinham  trocado de carro e ele continuava com o seu fazia 8 meses! Que absurdo! Esse carro não servia mais, naquele mesmo dia ele foi ver anúncios, iria ser feliz quando trocasse o carro…

Quando eu me formar serei feliz. O dia da formatura é realmente uma lembrança maravilhosa para quem já viveu. Depois de anos passando por diversas dificuldades e superações o diploma fictício é entregue por um professor, alegria na festa, brindes e todos vão para casa. Um novo dia, hora de buscar a primeira oportunidade de trabalho na área. Não foi tão fácil como prometeu a coordenadora do curso. “Será que conseguirei um emprego que seja?” ele pensou aborrecido, “talvez devesse ter feito engenharia, tem mais mercado…”

Quando eu me casar serei feliz. A hora chegou, entrar na igreja vestida de branco, pessoas olhando, seu pai ao lado, tudo cheio de flores e as músicas que emocionam. Lágrimas de felicidade, risos, alegrias e encontros, uma festa animada, o dia amanheceu! Hora de ir pra casa, dividir a vida com uma outra pessoa, um estranho que deixa uma tolha molhada na cama. Cadê a sensação de euforia? Cadê o sonho de acordar todos os dias ao lado de um príncipe? “Meu Deus ele é um sapo!” pensa desconsolada ao ver o marido roncando ao seu lado na cama. Chateada ela vira de lado e tenta dormir, mas no seu íntimo acredita no que as pessoas lhe disseram “casamento não é fácil, mas quer casar casa, mas depois não diga que não te avisei! ”

Quando eu tiver um filho serei feliz. Que dia mágico quando viu “positivo” no exame de gravidez. Toda a expectativa de 9 meses, tudo arrumado, dia de ir para o hospital, o nome do bebê na porta do quarto. Que grande felicidade, nasceu! É uma menina! Todos se alegram e comemoram… Os dias passam, as cólicas vem, uma gripe daqui uma alergia de lá, hora de voltar ao trabalho, “tchau filhinha, hora da mamãe trabalhar, você vai gostar daqui, têm muita criança pra você brincar…”, “…Estou cansada filha, dorme pelo amor de Deus, outra hora mamãe termina a historinha que já te contei 70 vezes, preciso responder um e-mail…”

Quando eu tiver uma casa eu serei feliz. Hora de assinar o contrato no banco, até que enfim! Uma casa! Sonho realizado, meta atingida, meses juntando dinheiro, quanto sofrimento! Mas agora nada de aluguel, um teto para morar! Os dias passam, a prestação aperta e a casa é um pouco pequena. Talvez fosse necessário ter esperado mais, talvez comprar em outro bairro, com mais espaço, não pode ter um cachorro, que pena! Cadê o entusiasmo de quando entrou nessa casa pela primeira vez?

Quando eu viajar serei feliz. “Ter um passaporte cheio de carimbos isso sim é garantia de felicidade”, ele pensou! E em todos os destinos que foi realmente foi feliz, aprendeu muitas coisas e experimentou diversos sabores. Mas sempre voltou para casa. E mesmo em casa ou pelo mundo um vazio sempre o perseguiu. Uma solidão que não tem destino certo, só existe e pronto! E a garantia da felicidade onde está?

Quando eu for promovido eu serei feliz. Anos se dedicando a empresa, quase não viu o filho crescer, o celular nunca deu descanso e os e-mails passavam de 200 todos os dias, mas o reconhecimento chegou, foi promovido, aumento salarial e mais prestígio na empresa! Uau!!! Que felicidade! Durou um dia. O peso do cansaço tirou a cereja do bolo. Cobranças, menos tempo, mais atividades. E no seu íntimo ele pensou “ganhava pouco mas era mais feliz”, mas balançou a cabeça e seguiu em frente pois tinha outra promoção em mente!

Quando eu tiver uma estabilidade financeira eu serei feliz. Que alegria ver a conta cheia, anos de economia e uma vida regada de tudo de melhor que o mundo pode oferecer! Os melhores restaurantes, resorts, viagens, carros, vinhos… Mas uma coisa sempre incomodava, a falta de tempo. O trabalho foi duro e as escolhas sempre trouxeram consequências boas e ruins. Algumas coisas não deram para ver ou sentir, não deu tempo, porque tempo é dinheiro e precisava ganhar sempre mais! Parecia ter um ótimo padrão de vida, mas a felicidade mesmo não pode comprar!

Todos nós temos planos, sonhos e objetivos e isso é muito importante para que possamos dar sentido à vida, porém, o questionamento que faço são das nossas expectativas de felicidade. O que acontece quando alcançamos um objetivo de vida? Nos sentimos felizes claro, mas quanto tempo dura esse sentimento? Pouco não é, logo, rapidinho já estamos inserindo outro objetivo para suprir essa sensação de vazio.

Isso nos faz crer que a felicidade não está nas coisas e nem nos sonhos que iremos realizar. Essa sensação de falta sempre existiu desde de tenra idade dentro de nós. Vivemos ignorando-a, sem pensar muito com medo do sofrimento que esta verdade pode nos trazer.

Só assim conseguiremos compreender como encontramos pessoas que mesmo em meio a uma guerra, doença, falta de dinheiro, miséria, entre outros, são realmente felizes. Talvez seja porque as pessoas que mais sofrem são as que mais enxergam a vida e o que realmente importa nela. Essas pessoas conheceram a felicidade e as tem diariamente.

Felicidade existe, mas não vai ser nossas conquistas que a manterá em nosso íntimo. Pequenas doses diárias de alegria pode ser mais duradouras e constantes se conseguirmos ver em nós mesmos o sentido de estar vivo. Quanto mais nos conhecemos saberemos reconhecer os momentos que nos darão prazer e, consequentemente sentir a tão sonhada felicidade. Esteja atento, pode ser que seja feliz e não saiba disso, muitas vezes a gente procura fora o que está dentro.

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