Somente cada um sabe a dor que sente

É muito fácil ouvir uma “receita pronta” quando relatamos algum problema que vivenciamos. Ouvimos tantas coisas, parece tão simples de ser solucionado, só que não é. “Esqueça isso. Vire a página. Não pense mais nisso. Confie em Deus. Siga em frente…” Mas as pessoas esquecem que não somos elas.

Cada um carrega em si a sua forma única de ver a vida e também os problemas que surgirão pelo caminho. Se uma pessoa vê como intransponível uma situação, provavelmente deve ser para aquela pessoa. Como ajudar então? Com certeza não é dar às pessoas a sua forma de ver o problema. O que é muitíssimo simples para mim não é para o outro.

Trabalhando com grupos terapêuticos percebo que é comum cada um falar das suas experiências e isso é muito enriquecedor, mas vale sempre ter o cuidado de não direcionarmos soluções que tivemos como se fossem o remédio para as dificuldades alheias. Nem mesmo desmerecermos o sofrimento dos outros porque, aos nossos olhos, nos parece mais fácil.

Somente cada pessoa sabe o peso que carrega e a dor que sente. Por mais empática que eu seja, ainda assim será difícil ver, sentir e vivenciar a experiência das outras pessoas. Mesmo assim, devemos sempre desenvolver a empatia, combater nosso egoísmo e todos os outros sentimentos que nos tornam menos humanos e, portanto, menos compreensivos com a realidade alheia.

Por que cada pessoa tem a sua dificuldade de lidar com os seus problemas? No decorrer da vida, quando cada situação nos traz uma adversidade é mais fácil seguir em frente sem realmente pensar e desmiuçar aquela dificuldade vivenciada. Por exemplo, diante de uma morte de um ente querido, uma pessoa pode se dopar para não sentir toda a tristeza daquela experiência ruim, com o passar dos dias o luto pode se tornar muito mais pesado, porque a realidade não foi sentida e vivenciada como deveria, mesmo que para isso sofresse demais, sem uso de medicamento.

Temos uma mania quase que comum a maioria das pessoas a nos acostumarmos com os pesos de problemas não resolvidos. Por não vivenciamos, vamos levando, seguindo em frente, muitas vezes motivados por conselhos das outras pessoas “Deixe isso pra traz”, mas o peso continua sendo carregado, a ferida continua aberta, a dificuldade te impede de avançar em outras situações na sua vida. Nos acostumando ao que nos faz mal, simples assim. A falta de reflexão na vida leva ao adoecimento. Vamos indo no automático até que muitas vezes a dificuldade a princípio psicológica se torna física.

Se cada um sofre, sente, vê e vive de forma única, como permear esse universo individual? A abertura está em cada pessoa. Por isso o processo terapêutico traz tanto resultado. É necessário que cada pessoa conhecendo a si mesma, através do autoconhecimento que pode ser adquirido com a terapia, por exemplo, é possível que possa relatar suas dificuldades ao ponto que a outra pessoa consiga lhe compreender por inteiro. Sem o consentimento e a fala é quase impossível conhecer e compreender o outro.

Como a pessoa sabe que precisa de ajuda? Uma hora vai acontecer. Uma hora a gente cansa de carregar o que não tem condições de suportar, uma hora a dor vem de forma intensa, quase desumana, uma hora até sentimos que vamos enlouquecer, surtar mesmo. O peito aperta, a garganta seca, o coração dispara, as pernas fraquejam, o corpo da sinal que não vai mais adiante, precisa de socorro.

Ao mesmo tempo que precisamos de ajuda, vivemos cada vez mais num mundo individualista onde não abrimos a oportunidade da compreensão do outro. Conversamos e nos importamos cada vez menos, de forma cada vez mais superficial, o que indica uma indiferença às dificuldades alheias. Perguntamos por exemplo a título da nossa curiosidade “E ai, já encomendou um filho?”, mas esquecemos de perguntar “Você está feliz com a vida que leva?” ou questionamos “E ai já foi promovido?” em vez de perguntar “Qual é o seu verdadeiro dom?”

Pelo que posso ver, analisando nossa realidade como um todo, cada dia mais nos importamos menos com o semelhante e priorizamos mais nossa vida no que diz respeito ao conforto que podemos ter. Ninguém sabe responder se a vida que leva é a que ele sempre sonhou, mas sabe dizer o que possui, como se as “coisas” fossem mais relevantes do que realmente somos. Quem eu sou? Que sentido tem a vida e qual o meu papel nela?

Para compreender melhor o outro é necessário que cada se compreenda, que fazendo perguntas obtenha respostas que dêem sentido a sua vida de uma forma mais ampla. Enquanto vivermos para alimentar apenas nosso ego não saberemos que podemos ser mais evoluídos, no que tange a nossa experiência do coletivo, ao sentimento de pertencimento da humanidade.

Enquanto isso não acontece, os consultórios de psicologia estarão sempre cheios de pessoas que, na falta de empatia dos outros, buscam alguém que possa lhes ver como realmente são, que lhes escuta com cuidado, respeitando suas dores e suavizando sua vida, tornando possível uma mudança que vem de dentro, que permita a busca da compreensão de si mesmos.

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