Como é morar em Ribeirão Preto para uma capixaba

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Depois de 1 ano e 4 meses morando em Ribeirão Preto – SP posso dizer que já me adaptei à esta cidade. Ouvi muitas pessoas perguntarem: “Já se adaptou à cidade?” Sim, sim… Ribeirão Preto é uma cidade que me acolheu muito bem.

Desde que vi esta cidade chegando de avião pela primeira vez achei a cidade até plana, perto das montanhas da minha cidade natal. Aqui o sol é forte e quente mesmo, e o sol demora se pôr. Se no clima eu sofro um pouco, saudade do vento e da umidade, no quesito qualidade de vida eu ganhei muito, em 7 minutos eu chego ao meu trabalho, por mais corrido que seja minha vida, aqui eu sempre consigo ter mais tempo para a família, para praticar atividade física, ler e escrever.

Mas para uma boa capixaba, Ribeirão Preto tem umas esquisitices, coisas da gente daqui… Percebi que quando te encontra na rua as pessoas dizem “Oi”, para nós não, falamos “Ei”. Na hora de cantar Parabéns todos cantam mesmo, inteiro e no fim ninguém canta “haha huhu, eu vou comer seu bolo!”, um dia cantei todos me olharam espantados! Rs

Logo que me mudei para cá, com exceção dos familiares do meu marido, as pessoas me olhavam desconfiadas, não sei se era meu jeito de falar, de vestir ou de ser, no meu trabalho estranhei muito os primeiros dias, ninguém me acolheu e disse “Vou almoçar hoje com você”, demorou muito uma conhecida do meu marido me chamar para sair, aqui o povo é fechado e demora abrir a guarda, diferente dos capixabas que são logo de cara acolhedores e receptivos!

Aqui se alguém vai fazer um churrasco, independente se for na casa ou em algum local alugado eles dizem “edícula”, alguns capixabas nunca ouviram esta palavra! Aqui a papa de milho é cural e leva leite no preparo. Mas o maior espanto foi ver as pessoas comendo chouriço cru na salada, aqui ele não é frito!

Aqui têm gente que não gosta de açaí e prefere sorvete! O açaí aqui é caro e a cada complemento devemos pagar separadamente, algo totalmente diferente para nós capixabas acostumados a ver o açaí na taça ou tigela e ter direito a vários complementos por um único preço justo!

Os capixabas nunca usam artigo definido antes do nome das pessoas, falamos: “Karol vai trabalhar hoje, Cris já tá dormindo”. Em vez de “A Karol vai trabalhar hoje, a Cris já tá dormindo”. Aqui ninguém usa “de” e sim “do ou da”, por exemplo “vou à casa da Débora”, para os capixabas “vou à casa de Débora”. Aqui as pessoas falam “fecha” como se tivesse o som de acento agudo “fécha a porta”, diferente de nós que o som é fechado do “e” e soa “fêcha a porta”.

Nós nunca dividimos o copo, ou latinha com amigos ou familiares, aqui eu já vi grupos dividindo um mesmo copo de caipirinha, por exemplo. Lá não, cada um tem que ter o seu copinho, cada um tem que ter a sua latinha. Aqui biscoito é bolacha, e não tente convencer ninguém do contrário, porque eles não aceitam!

Algo que estranhei muito é ver os supermercados abertos aqui no dia de domingo, lá quase nenhum comércio abre aos domingos e tem uma lei estadual para isso. Isso contribui e muito para as famílias se unirem mais neste dia, seja na praia, ou em casa fazendo um churrasco. Ah, lá também não falamos “vou ao mercado”, lá “vou ao supermercado”, se usarmos esse termo é para dizer que vamos num mercadinho pequeno com verduras e frutas.

A maior dificuldade ainda está sendo a de saber o nome das ruas para ir aos lugares aqui, isso é tão esquisito para mim… Ninguém de lá sabe o endereço de nada. Nome de rua é enfeite, e ninguém usa GPS. Quando alguém te chama para ir na sua casa e você pede o endereço, a pessoa normalmente responde: “Vai até o shopping, vira a direita, passa o semáforo, na segunda rua você entra, depois vira a esquerda, terceira casa cor amarela”, aqui me dizem “vai pela Francisco Junqueira, vira na rua Sete de Setembro vira na Bernardino de Campos, segue até atravessar a Independência…”

Algo muito diferente são as verduras vendidas nos supermercados, elas são estranhas e muito sem gosto, somente em mercados especializados em verduras e frutas se encontra as melhores. Ah, aqui banana da terra quase ninguém come ou conhece, às vezes procuro e nem encontro e quando encontro estão sem doce!

Aqui o forte é churrascaria, também encontrei aqui a melhor costelaria da minha vida, porém, o frango cozido é branco e não usam coloral (urucum), uma moqueca aqui é realmente muito difícil de achar, e achar uma moqueca de dourado com camarão, pirão e uma moquinha de banana da terra para acompanhar é impossível!

Passear em Ribeirão Preto é ir ao shopping, têm 4 na cidade, e estacionar também é algo muito difícil, porque toda cidade está lá principalmente nos fins de semana. Mas aqui também têm bosques, parques e clubes bacanas que são bem arborizados e ajudam a suavizar o calor escaldante. Claro que sinto a saudade da praia, do vento gelado e da maresia… E temos de ter cuidado em sair com biquines e saítas de praia, esses adereços só são aceitos normalmente nos clubes e locais de banho!

Muito engraçado é que muitos percebem que eu tenho sotaque, embora eu os ouça com um sotaque muito carregado do interior, puxam muito o “r”, e amigas capixabas me disseram que eu estou começando a falar assim também. Quando eu falo que sou do Espírito Santo as pessoas daqui pensam que faz parte do Nordeste, outras pensam que seja na região Sul, mas nunca da região Sudeste como a delas!

Ir à praia aqui é o sentimento dos mineiros quando vão para o Espírito Santo, alegria sem fim, amam demais o mar e gostam de ondas, contam os minutos para um feriado ou férias e viajar para a praia.

Aqui eles dizem que tem muito trânsito, mas não sabem o que é um engarrafamento da Reta da Penha ou da 3ª Ponte num horário de pico, como nós capixabas! Pelo contrário, o trânsito aqui flui muito bem, nada de engarrafamento e ficar parada por horas na volta para casa!

Sim, Ribeirão Preto tem algumas esquisitices. Tenho certeza que vou descobrir muitas mais. Mas afinal, quem não tem não é? O balanço geral é extremamente positivo. Gosto muito de morar aqui e com o tempo tudo se tornou mais suave, principalmente a saudade da família, amigos e da minha cidade, no início tinha vontade de voltar, chorava quase todos os dias e estranhava tudo, hoje isso faz parte do passado. Amo minha vida aqui, casamento, trabalho, novos amigos, novas rotinas… Uma nova vida!

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