Plantar uma árvore, escrever um livro e fazer um filho

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Hoje acordei e pensei nisso… De todos os seres vivos terrestres somos os únicos que possuem a consciência da própria finitude. Nascer e morrer são duas prerrogativas sabidamente irrevogáveis para todos nós, contudo durante a vida caminhamos quase sempre evitando pensar nisso.

Ninguém quer morrer, mas todo mundo vai, contudo vivemos como se fossemos imortais. Colocamos sobre o colo milhares de pequenos afazeres e nos esquecemos de contemplar o tempo e onde estamos no espaço-tempo da nossa própria vida. Já parou para olhar o cronômetro? O tempo vai seguindo para frente nunca volta, parece um convite a reflexões profundas…

Dessa forma, antes de mais nada, é preciso dizer aqui em alto e bom tom que a vida humana é lamentavelmente curta. E pior, é ainda mais curta para os que não acordam para o real sentido dela. Ou seja além de curta se torna pequena.

Uma vida é pequena quando nossa presença nela não faz diferença alguma. Quando vivemos de forma banal, fútil, inútil e superficial. Quando nos tornamos mornos…

Morna é aquela pessoa “mais ou menos”. Mais ou menos amiga, mais ou menos profissional, mais ou menos amante. Morna é a pessoa que adora ditar o velho chavão do “eu faço o que posso”. Morna é a pessoa que não acredita no melhor, nem na aplicação dele para melhoria da vida de todos. Morna é aquela pessoa que não faz falta.

Para fazer falta é preciso ser importante. Entretanto, diferente do que podemos imaginar, para ser importante não é necessário ser famoso (haja visto que a fama é efêmera), basta apenas que sejamos importados para dentro do coração daqueles que nos cercam e que são tocados pelas nossas iniciativas e atitudes. Cativar e ser cativado.

E talvez depois disso, depois de nos tornarmos importantes para os que estão ao nosso lado, possamos pensar na possível “não morte”. Mas como assim “não morte”? Isso não diz respeito à negação da morte física, mas à sobrevida do nosso Eu. Dessa forma só morremos mesmo quando somos definitivamente esquecidos.

Vou explicar, quando vou até a cozinha e me lembro do gosto da deliciosa rosquinha que minha avó faz, a torno viva através de meus pensamentos e memórias. Quando cito um autor do século passado, puxo a manta do esquecimento que dedilha sua lápide. Quando canto uma canção de Vinicius de Moraes, o reavivo, prolongando sua vida para além dela mesma. Sabe aquele ditado que nos diz sobre “plantar uma árvore, escrever um livro e fazer um filho”? Ele tem muito a ver com esse sentido de “não morte”.

Quando planto uma árvore e cuido para que ela se fortaleça e sobreviva a mim, ela levará consigo um pouco do que sou e de minha iniciativa e atitude. Ela será como uma lembrança minha a acenar para os que contornam seu tronco que eu em corpo um dia lá estive e ideologicamente ainda estou.

Com um filho também é assim, devo dar atenção e passar meus valores, dar a ele o tempo necessário para que aprenda comigo, ele levará consigo o que sou não só nos traços e genes, mas em sua ideologia e caráter também.

Dizer de um livro é o mesmo, pois se minhas palavras e pensamentos compilados forem de importância significativa para a vida dos que vierem a me ler, o que foi escrito por mim ficará e transcenderá o tempo.

Mas o que estamos fazendo hoje com nossas vidas? Estamos nos dando tempo para plantar e regar uma árvore ou estamos apenas jogando uma muda de qualquer jeito dentro de um buraco raso? Ou pior, estamos cortando as poucas árvores que restam?

Estamos criando vínculos com nossos filhos ou protelando a outros questões que só nos dizem respeito? Quanto tempo você oferece ao seu filho? Que valores está passando?

Somos movidos por reflexões profundas, recheadas de sentido, que partilhadas podem fazer florescer o melhor em outros corações ou estamos apenas preocupados com conversas e presenças superficiais?

Fazemos o nosso melhor dentro das possibilidades que nos foram dadas ou nos contentamos com o entediante e desmotivante “faço o que posso”?

Somos pessoas repletas de amor e de importância para nossa família, amigos e comunidade ou resmungões solitários que esperam o mundo dar errado para dizer “eu falei”?

Seremos lembrados apenas durante nossos anos de vida ou faremos das nossas ações um ponto de partida para o que pode transbordar para um tempo além do nosso?

É esse o momento para verdadeiramente ser, para verdadeiramente amar e para verdadeiramente proclamar o melhor que carregamos em nós. O momento é agora!

Apenas sendo de verdade, dando o melhor de nós, podemos enfim ganhar um lugar cativo no coração daqueles que sinceramente tocamos e dessa forma não angustiarmos quando uma voz sabiamente nos indagar: “Se você não existisse, faria alguma falta?”

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