Discriminação Sexual no Processo de Seleção

mulher

DISCRIMINAÇÃO SEXUAL NO PROCESSO DE SELEÇÃO

Bruna Marques Gonoring

Patrícia Moreira Prado

 

Resumo

A discriminação da mão de obra feminina no processo de seleção é uma questão que requer aprofundamento sobre as condições que favorecem a permanência de práticas discriminatórias no mercado de trabalho. A metodologia adotada é a revisão de literatura, sobretudo, uma revisitação à obra de Pierrer Bourdieu, “A dominação Masculina”, de 1990. Identificou-se que ainda existe uma discriminação sexual mantida pela cultura marcada pela dominação masculina, o que ainda resulta na discriminação sofrida pela mulher no processo de seleção, ainda que de forma sutil.

Palavras-chave: Discriminação; Mão de obra Feminina. Dominação Masculina.

  • Introdução

Nos últimos 50 anos, muitas transformações ocorreram no âmbito econômico, social e demográfico, das quais alterou de forma considerável a força de trabalho familiar, sobretudo a mão de obra feminina.

Dentre as mudança que geraram maior impacto, está a composição da família. O antigo formato do padrão pai, mãe e filhos deu lugar para mãe e filhos, pai e filhos, filhos independentes, etc. Outro ponto foi a diminuiçao da taxa de fecudidade. Com o processo de urbanização, redução na taxa de fecundidade e aumento do nível de escolaridade a mulher passou a assumir um papel ativo como força de trabalho. A partir desse momento, intensificado pela nova organização estrutural familiar, pelo aumento crescente de mulheres divorciadas e a ampliação do consumismo, as mulheres tiveram necessidade de trabalhar para manter o sustento de si mesma e de seus filhos, assim como colaborar na renda extra para o consumo de sua família.

O Movimento Feminista, movimento social que defende a igualdade de direitos entre homens e mulheres em todos os campos, iniciou na Revolução Francesa, período que as mulheres foram encorajadas a se manifestarem contra a sujeição aos homens, isso nos âmbitos político, econômico, social, familiar, educacional, jurídico, entre outros. Segundo Probst (2008, p. 2) “No século XIX, com a consolidação do sistema capitalista inúmeras mudanças ocorreram na produção e na organização do trabalho feminino”. Porém, mesmo alcançado essas conquistas continuaram sendo discriminadas.

A partir da década de 1960 a mão de obra feminina cresceu, marcado por mais uma ação do Movimento Feminista que continuava lutando contra a discriminação da mulher em todos os âmbitos da sociedade e, principalmente, no mercado de trabalho.

As discriminações mais sofridas pelas mulheres no mercado de trabalho em relação aos homens são as desigualdades salariais, desigualdades relacianadas a função exercida, sendo elas vistas como tendo capacidade intelectual inferior, menor disponibilidade às necessidades da empresa, o que contribui para a (re)construção de uma imagem feminina fragilizada.

Nos processos de Recrutamento e Seleção das empresas, em geral, é observado essa discriminação pelo profissional responsável que realiza a seleção de pessoas. Esta visão é mantida pela cultura de uma sociedade machista construída no decorrer dos anos.

Nesse sentido, o presente trabalho pretende desenvolver uma reflexão crítica a respeito da discriminação contra a mão de obra feminina no processo de seleção, considerando que o aprofundar do conhecimento sobre as condições que favorecem a permanência de práticas discriminatórias no mercado de trabalho corroboram para a conscientização que tais práticas devam ser combatidas. A metodologia do presente trabalho está fundada em dois elementos que se entrelaçam: uma breve  revisitação de literatura, sobretudo baseada nas contribuições de Pierre Bourdieu, a vivência e percepção das autoras do presente artigo, as quais vêm vivenciando quotidianamente o processo de recrutamento. Para a operacionalização do objetivo proposto tomou-se um estudo de caso realizado em 6 empresas da Região Metropolitana da Grande Vitória-ES, sendo 6 entrevistadas responsáveis pelo processo de seleção.

O artigo está dividido em cinco (06) seções, sendo a primeira a presente introdução. Na segunda parte é apresentado algumas das fases da discriminação. A terceira parte objetiva discutir brevemente o tema “a mulher no mercado de trabalho” e algumas de suas dificuldades provocadas pela discriminação sexual. Na quarta parte desse artigo é realizado uma discussão referente a discriminação sofrida pelas mulheres no processo de recrutamento profissional. Na quinta parte é abordado o estudo de caso onde é apresentado dados das empresas, das entrevistadas e análise dos resultados. Por fim, na sexta parte, são realizadas as considerações finais.

  • As diferenças entre os sexos e as faces da discriminação

De acordo com o Artigo 5º da Constituição Federal Brasileira, “todos são iguais perante a lei”, e mais adiante no inciso I, “homens e mulheres são iguais em direitos e obrigações, nos termos desta Constituição”, porém, a nossa história nos mostra que ainda não foi possível colocar esta lei em prática.

Desde o início da humanidade o homem se colocou numa posição de dominação, presume-se que, originalmente, o homem tenha dominado a mulher pela força física.

Os primeiros homens utilizavam dessa força para impor sua liderança sobre a mulher. É observado que nas escrituras biíblicas que a mulher foi criada a partir da costela de Adão, o que sugere que a mulher pertence ao homem e que seu surgimento se deu para agradar a ele.

No decorrer de toda a história a mulher culturalmente foi vista como submissa, frágil, dócil, companheira. Tal visão foi mantida pela dominação masculina.

Desde bebês, os homens e mulheres são criados de forma diferenciada. Os homens aprendem desde cedo a ter uma postura ousada, como por exemplo, o tipo de brincadeiras que sempre foram mais desafiadoras, voltadas para um comportamento mais agressivo e dinâmico, postura física, como por exemplo, sentar-se com as pernas abertas, aceitação dos pais em relação a superioridade do orgão sexual masculino e incentivo do apelo pela razão e menos da emoção, como por exemplo, o homem não pode chorar. É notado que os homens desde muito cedo aprendem a ter uma postura de liderança, incentivado pelos pais, escola e sociedade para garantir no futuro o desempenho da sua função de provedor.

[…] Ser homem, no sentido de vir, implica um dever-ser, uma virtus, que se impõe sob a forma do “é evidente por si mesma” sem discussão. Semelhante a nobreza, a honra – que se inscreveu no corpo sob forma de um conjunto de disposições aparentemente naturais, muitas vezes visíveis na maneira peculiar de se manter de pé, de aprumar o corpo, de erguer a cabeça de uma atitude, uma postura, às quais corresponde uma maneira de pensar e de agir, um éthos, uma crença etc. – governa o homem de honra, independentemente de qualquer pressão externa. (BOURDIEU, 2002, p. 31).

A mulher por sua vez, mediante a construção da sociedade machista, deve ser preservada, protegida, resguardada. Enquanto criança as brincadeiras devem ser contidas, não é valorizado o seu orgão sexual, pelo contrário, qualquer menção feita pode provocar punição e perda de prestígio. A virgindade era algo muito importante e determinava o futuro da mulher (isso ainda é realidade dentre muitos grupos sociais), como por exemplo, ser vista como prostituta se não fosse mais virgem, podendo ainda não casar por conta disso, sendo até difamada publicamente na sociedade deixando de ser respeitadas. O comportamento desde muito cedo devia ser moderado, a postura física da mulher sempre tende a ser submissa, como por exemplo, andar de cabeça baixa, não olhar nos olhos, sentar-se de pernas fechadas. Os cuidados com a mulher também são diferentes, não podem dormir, brincar ou tomar banho junto com os meninos.

[…] A diferença biológica entre os sexos, isto é, entre o corpo masculino e o corpo feminino, e, especificamente, a diferença anatômica entre os órgãos sexuais, pode assim ser vista como justificativa natural da diferença socialmente construída entre os gêneros e, principalmente, da divisão social do trabalho. (BOURDIEU, 2002, p. 10).

Com relação a essa diferenciação culturalmente atribuída, afirma Bourdieu que,

[…] A força particular da sociodicéia masculina lhe vem do fato de ela acumular e condensar duas operações: ela legitima uma relação de dominação inscrevendo a em uma natureza biológica que é, por sua vez, ela própria uma construção social naturalizada. (BOURDIEU, 2002, p. 16).

A identidade social da mulher, assim como a do homem, é construída através da atribuição de distintos papéis, que a sociedade espera ver cumpridos pelas diferentes categorias de sexo. A sociedade delimita, com bastante precisão, os campos em que pode operar a mulher e o homem.

O homem é considerado o provedor das necessidades da família. Ainda que sua mulher possa trabalhar remuneradamente, contribuindo, desta forma para o orçamento doméstico, cabe ao homem ganhar o maior salário a fim de se manter no papel de chefe.

A socialização dos filhos, por exemplo, constitui tarefa atribuída às mulheres. Mesmo quando a mulher desempenha uma função remunerada fora do lar, continua a ser responsabilizada pela tarefa de cuidar e preparar os filhos para a vida adulta. Segundo Loureiro e Cardoso (2008, p. 227), “as próprias mulheres parecem aceitar muito bem essa desigualdade de papéis ao nível familiar”.

A subordinação da mulher é um fenômeno que atravessa todas as classes sociais, sendo legitimada também por todas as grandes religiões.

No ambiente de trabalho as mulheres sofrem mais estresse do que os homens, porque, geralmente, exerce dupla jornada, no trabalho e em casa. Segundo Probst (2008, p. 04) “as mulheres dedicam-se tanto ao trabalho quanto o homem e, quando voltam para casa, instintivamente dedicam-se com a mesma intensidade ao trabalho doméstico”.

A família sofreu grande transformação no último século, as famílias tradicionais formadas por mãe, pai e filho tiveram outras formatações, mudanças como: divórcios, união de homossexuais, independência dos filhos, diminuição das famílias extensas, uso de métodos contraceptivos, migração das famílias do campo para as cidades, aumento do nível de escolaridade, acesso às informações e principalmente o próprio movimento feminista permitiram maior inserção da mulher no mercado de trabalho.

[…] Em 1991, a renda média das brasileiras correspondia a 63% do rendimento masculino. Em 2000, chegou a 71%. As conquistas comprovam dedicação, mas também necessidade. Em 1991, 18% das famílias eram chefiadas por mulheres. Segundo o Censo, essa parcela subiu para 25%. Das 10,1 milhões de vagas de trabalho abertas entre 1989 e 1999, quase 7 milhões acabaram preenchidas por mulheres. As pesquisas revelam que quase 30% delas apresentam em seus currículos mais de dez anos de escolaridade, contra 20% dos profissionais masculinos. (PROBST, 2008, p. 03).

No decorrer dos anos a dominação masculina ocorreu de forma imposta e vivenciada, muitas vezes imperceptível para suas próprias vítimas – as mulheres.  A violência simbólica, suave, insensível e invisível atuaram nas vias simbólicas da comunicação, do conhecimento e até em nível inconsciente.

A sociedade investe na naturalização deste processo. Isto é, tenta fazer crer que a atribuição do espaço doméstico à mulher decorre de sua capacidade de ser mãe. De acordo com este pensamento, é natural que a mulher se dedique a afazeres domésticos, compreendida a socialização dos filhos, como é natural sua capacidade de conceber e dar à luz. E por sua vez, a mulher se torna frágil, dócil e fraterna, essas características rotuladas as mantiveram reféns do preconceito nesta sociedade.

[…] Uma “história das mulheres” que faz aparecer, mesmo à sua revelia, uma grande parte de constância de permanência, se quiser ser consequente, tem que dar lugar, e sem dúvida o primeiro lugar, à história dos agentes e das instituições que concorrem permanentemente para garantir essas permanências, ou seja, Igreja, Estado, Escola etc., cujo peso relativo e funções podem ser diferentes, nas diferentes épocas. Tal história não pode se contentar com registrar, por exemplo, a exclusão das mulheres de tal ou qual profissão, de tal ou qual carreira, de tal ou qual disciplina; ela também tem que assinalar e levar em conta a reprodução e as hierarquias “profissionais, disciplinares etc.”, bem como as pré disposições hierárquicas que elas favorecem e que levam as mulheres a contribuir para sua própria exclusão dos lugares de que elas são sistematicamente excluídas. (BOURDIEU, 2002, p. 50).

A imagem da mulher no ambiente de trabalho muitas vezes é percebida pelas homens como vulgar, com uma conotação sexual voltada para seu corpo e seus trajes. Segundo Bourdieu,

[…] Qualquer que seja sua posição no espaço social, as mulheres têm em comum o fato de estarem separadas dos homens por um coeficiente simbólico negativo que, tal como a cor da pele para os negros, ou qualquer outro sinal de pertencer a um grupo social estigmatizado, afeta negativamente tudo que elas são e fazem. (BOURDIEU, 2002, p. 55).

É comum no ambiente de trabalho a mulher sofrer assédio sexual, cada vez mais é crescente esse tipo de denúncia no Ministério do Trabalho, porém, é muito difícil para a mulher provar tal ato, porque o assediador age quando a vítima está sozinha e difama a mulher antes de iniciar o assédio, promovendo uma visão distorcida dos outros colegas de trabalho. Muitas mulheres afirmam sofrer ou já ter sofrido assédio sexual no ambiente de trabalho.

A discriminação é muito pior para as mulheres negras. Neste caso, a diferença de remuneração para um homem branco pode chegar muito além do salário deles.

  • A mulher no mercado de trabalho

As mulheres têm conquistado cada vez mais espaço na sociedade, e consequentemente, no mercado de trabalho. Toda conquista, até o presente momento, foi mérito das mulheres. Deixar os filhos, se inserir no mercado de trabalho, conseguir o mesmo desempenho profissional que os homens, muitas vezes até maior, atingir um nível superior de escolaridade, assumir responsabilidades e ter uma dupla jornada de trabalho não foi um processo fácil. Muitas lutas marcaram e proporcionaram a abertura do mercado para as mulheres.

[…] Elas administram os conflitos na tentativa de manter a harmonia entre os integrantes do grupo do qual ela é integrante, ocupando o cargo de chefe ou não, e buscam mais intensamente o desenvolvimento da equipe, procurando compartilhar mais seus conhecimentos do que os homens. Achando as soluções de um modo diferente dos companheiros do sexo masculino, as mulheres pretendem ouvir outras pessoas e se armar antes de tomar decisões e consideram mais as consequências dos seus atos em longo prazo. A coragem de algumas mulheres abriu e consolidou caminhos para as gerações atuais. (SERPA, 2010, p. 17).

As funções oferecidas no mercado de trabalho para as mulheres ainda são inferiores que os homens, elas apresentam dificuldade de conseguir um novo emprego quando são demitidas, por exemplo, apresentam dificuldade em entrar no mercado  de trabalho, quando obtido, muitas vezes é sem qualidade e sem carteira assinada.

[…] Com as trabalhadoras brasileiras encontrando se não apenas segregadas em ocupações pior remuneradas, como também auferindo rendimentos menores que os trabalhadores no desempenho da mesma função/ocupação. (OMETTO, 2001, p. 175).

Toda mudança exige alteração de hábitos e comportamentos, segundo Loureiro e Cardoso (2008, p. 228), “sem igualdade fora do local de trabalho será muito difícil falar de igualdade no local de trabalho”. No processo de desconstrução da discriminação contra a mulher no mercado de trabalho, deve ser iniciado dentro do lar, tais responsabilidades devem ser divididas com o marido, que por sua vez mobilizará um grupo de outros homens, consequentemente mobilizará empregadores e até governantes, sendo possível assim haver maior equilíbrio entre homens e mulheres no mercado de trabalho.

  • O processo de Recrutamento e Seleção e a disciminação sofrida pela mulher nesse processo

O processo de recrutamento visa atrair candidatos potencialmente qualificados e capazes de ocupar cargos dentro da organização. O processo inicia quando é percebido a necessidade de captação de pessoas no mercado de trabalho.

Os profissionais envolvidos na seleção geralmente são analista de RH, psicólogos organizacionais, supervisores, gerentes e diretores. É necessário antes de iniciar o processo de seleção definir o Perfil de Competências, que é um conjunto de competências, habilidades e atitudes necessárias para o indivíduo apresentar desempenho excepcional em um determinado cargo.

Segundo Bohlander (2009) existem passos que devem ser seguidos no processo de seleção. O primeiro deles é uma descrição adequada de cargos, que é detalhado o resumo das atividades que o cargo exige: escolaridade, experiência, cursos extracurriculares entre outras informações.

Segundo passo é a Definição da Estratégia de Atração: onde divulgar a oportunidade de emprego e onde pode ser encontrado o profissional com o perfil que é necessário. Nesse momento, deve ser decidido se o processo será interno, quando procura-se dentro da empresa o candidato mais adequado a um determinado perfil necessário para agregar valor a uma competência organizacional ou externa, quando não se tem dentro da empresa pessoas capazes de atender ao perfil desejado.

O terceiro passo é marcado pela Definição dos Meios de Atração: como divulgar a oportunidade de emprego e que instrumentos usados para divulgação da oportunidade de emprego. As formas de divulgação mais comuns são: agências de emprego, sites corporativos ou de empregos, anúncios em jornais/ revistas especializadas, indicações, contatos com escolas, universidades e agremiações, headhunters, consultorias na área de RH, cadastro de outras empresas, internet, cadastro de ex-empregados da organização, cartazes, banco de talentos.

O quanto passo é a Triagem do Currículo: avaliação de tudo que o candidato inseriu no seu currículo tais como: dados pessoais, escolaridade, experiências profissionais, cursos realizados e objetivo profissional. A seleção pode ser definida como a escolha do candidato certo para o cargo certo, ou, mais amplamente, entre os candidatos recrutados, aqueles mais adequados aos cargos existentes na organização, visando manter a eficiência e o desempenho do pessoal, bem como a eficácia da organização.

O quinto passo é a Avaliação do Candidato: é feita através de entrevistas, testes escritos, testes práticos, testes psicológicos e dinâmica de grupo.

E, por último é verifcado o resultado, com base nas entrevistas e testes e dinâmica de grupo aplicados é possível traçar um perfil, podendo ser favorável ou não para a vaga.

No decorrer do processo de seleção, é importante determinar o perfil de competências que o candidato deverá possuir para desempenhar a função em questão, o início da discriminação sofrida pela mulher começa nesse ponto.

As descrições de cargo possuem determinações de sexo e competências que determinam a preferência do gênero do profissional.

Muitas funções também são pré-determinadas para um tipo de sexo, como por exemplo, engenheiro, mecânico, motorista, repositor de estoque, Juiz, entre outras, que não possuem nenhuma exigência real que deverá ocupar a vaga somente se for homem, no entanto, é observado que nestas áreas predominam os homens pela escolha da empresa através do profissional de seleção. Como também é visto para mulheres funções pré-determinadas como professora, psicóloga, gerente de recursos humanos, pedagoga, enfermeira, entre outras.

É muito comum perceber que na área de exatas predominam os homens e nas humanas as mulheres, porém, esta realidade condiz com a construção social do papel da mulher na sociedade no decorrer dos anos.

[…] A ordem social funciona como uma imensa máquina simbólica que tende a ratificar a dominação masculina sobre a qual se alicerça: é a divisão social do trabalho, distribuição bastante estrita das atividades atribuídas a cada um dos dois sexos, de seu local, seu momento, seus instrumentos; é a estrutura do espaço, opondo o lugar de assembleia ou de mercado, reservados aos homens, e a casa, reservada às mulheres; ou, no interior desta, entre a parte masculina, como salão, e a parte feminina, como o estábulo, a água e os vegetais; é a estrutura do tempo, a jornada, o ano agrário, ou o ciclo de vida, com momentos de ruptura, masculinos, e longos períodos de gestação, femininos. (BOURDIEU, 2002, p. 09).

As empresas, nos dias atuais, estão mais exigentes, principalmente na questão de flexibilidade, adaptabilidade e disponibilidade, tais competências são necessárias para o desempenho de muitas funções, principalmente as gerenciais, e é neste momento que muitas mulheres perdem a oportunidade de emprego para os homens. Para o homem, ser casado e ter filhos aumenta sua chance de conquistar uma função de gestor, por exemplo, porém, para as mulheres casadas e com filhos diminuem consideravelmente suas chances, visto que, supõem que elas podem faltar os dias de trabalho para levar os filhos ao médico, não tem disponibilidade para viajar e ficar mais tempo a disposição da empresa. Essa diferença de tratamento se dá pela mulher não ser vista desvinculada ao papel de dona de casa e mãe. Uma gravidez, por exemplo, pode ser vista como comprometedora da carreira profissional da mulher.

O processo de seleção também é dinâmico e muda a cada dia, principalmente por ser cada dia maior o número de mulheres trabalhando na seleção, isso muda o olhar, mas não é difícil perceber a discriminação de mulher para mulher, por ser tão natural e impregnada a dominação masculina na sociedade, como apontou Bourdieu (2002).

As funções de liderança são, desde o início da civilização, dominadas pelos homens, fato que se explica pela forma em que eles foram criados, incentivados a estar a frente, tomar decisões e assumir riscos.

Outro ponto seria a posição do homem no lar, sendo responsável pelo provento da família, assumindo posição de chefe, no ambiente de trabalho ele tende a assumir este mesmo papel.

  • A Vivência da Mulher nos processos de Seleção

Um estudo de caso foi realizado com 6 profissionais responsáveis pelo processo de seleção de empresas diferentes da Grande Vitória. Os ramos das atividades são: Prestação de serviços em logística, atividades logística portuária, alimentícia, transporte marítimo, alimentos para ração animal e suporte em TI. Todas a[i]s entrevistas trabalham no setor de Recursos Humanos, suas profissões são psicólogas e administradoras, todas são mulheres e estão entre 23 e 36 anos de idade.

Os dados foram coletados através de entrevista semiestruturada, sendo as questões voltadas para a análise crítica da mulher no processo de seleção. Sendo mulheres, as perguntas também tentaram questionar o papel da mulher enquanto recrutadora de pessoas e, se elas possuiam algum preconceito contra sua própria classe.

A entrevista foi dividida em 3 partes: a primeira abordou “identificação e dados sóciodemográficos”; a segunda questionou dados “sobre a empresa x empregado” e; por último, “sobre o processo de seleção”.

  • Análise sobre as respostas

Todas as questões estavam relacionadas e tentavam averiguar se a discriminação ainda é vivenciada no processo de seleção dentro das empresas. De forma investigativa as perguntas levaram a reflexão dos entrevistados, mesmo que a nível inconsciente sobre a dominação masculina.

Na questão sobre a busca de justificativa pelo fato de maior número de funcionários nas empresas serem homens a entrevistada Ana respondeu: “Homens, devido ao trabalho ser operacional, logístico. O que inclui trabalhar nos finais de semana e em horários noturnos.” Maria respondeu “Homens. Acredito ser um perfil da área de TI, existem mais homens neste mercado.” Na área de fabricação de ração animal, Raquel respondeu “Homens, porque na área de fabricação, onde o número de colaboradores é maior, é necessário maior rendimento e força física.” Em atividades portuárias, Cristina afirmou “Contratam-se mais homens, por ser uma empresa voltada para o operacional. Porque ainda temos em mente que trabalho pesado é somente para homens e não para mulheres, mas no ano passado contratamos uma mulher para operação e ela se saiu muito bem em meio aos “Peões”. Na fabricação de alimentos, Bianca respondeu “Homens devido a necessidade de mão de obra masculina para executar atividades que exigem mais esforço físico.” E na área de transporte marítimo, Paola afirmou “Contrata se mais homens devido ao ramo de atividade da empresa, hoje nossa maior massa de colaboradores é operacional.”

As respostas refletem a história da dominação masculina que dá ao homem o papel de força e domínio.

[…] Em suma, ao trazer à luz as invariantes trans-históricas da relação entre os “gêneros”, a história se obriga a tomar como objeto o trabalho histórico de des-historicização que as produziu e reproduziu continuadamente de diferenciação a que homens e mulheres não cessam de estar submetidos e que os leva a distinguir-se masculinizando-se ou feminilizando-se. (BOURDIEU, 2002, p. 51).

Sobre acreditar se há discriminação de gênero nas empresas, as respostas são sempre sim: Raquel afirmou “Sim, principalmente na área operacional, pois a mulher ainda é vista como frágil comparada ao homem.” Ana concordou e disse: “Sim, isso acontece com muita frequência.” Cristina declarou:

Sim, vou te dizer a verdade, tentei quebrar esse tabu o ano passado aqui na empresa, onde não havia mulheres na operação, quando veio um currículo de uma HSE (Técnica de Segurança no Trabalho)  e o currículo dela era perfeito e se encaixava para a vaga.  Levantei essa ideia. Levei até a diretoria e eles aceitaram, agora o que mais me deixou abismada foi que uma Gerente Administrativa não concordou de contratar mulher para o operacional, mas no final ela foi contratada e tem o respeito de todos inclusive da diretoria, num corte feito agora com uma crise na empresa,  02 HSE’s  foram e ela ficou, quebramos o preconceito, mas foi difícil no inicio.

Outra entrevistada, Paola, expôs:

Infelizmente, precisamos ser realistas ao ponto de entender que homens e mulheres diferem-se uns dos outros, existem cargos que precisamos da mão de obra masculina. A mulher conseguiu avançar muito bem no mercado de trabalho, porém, ainda não estão aptas para lidar com todos os processos na empresa, e para determinados cargos temos essa necessidade de mão de obra masculina.

Uma última, Bianca afirmou que: “Para algumas vagas precisamos dar preferência pra um ou pra outro. Aqui na empresa precisamos de mão de obra masculina pelo fato das atividades serem mais braçais. É inadequado para uma mulher ocupar essas vagas.”

Tais afirmativas obtidas por meio da entrevista corroboram com o que afirmou Bourdieu (2002), sobre a ordem social da qual funciona a máquina simbólica que atribui ao homem a dominação e a mulher a sobordinação, distribuindo de forma estrita as atividades dos dois sexos.

Outra questão levantada buscou identificar se as entrevistadas vivenciaram ou presenciaram discriminação por ser mulher, Raquel  respondeu:

Não vivenciei ou presenciei algum preconceito significativo contra a mulher. O que acontece com certa frequência dentro da empresa é que os gestores de alguns setores na área operacional não aceitam entrevistar mulheres, pois acreditam que para o setor a mulher não terá a mesma resistência e força física que o homem tem.

Ana nos respondeu da seguinte maneira:

Sim. Certa vez em SP o gerente do contrato e a analista de RH brigaram por conta de um furto que ela sofreu, as notícias deste fato chegaram até Vitoria e as providências retornaram para SP, mas a situação ficou insustentável e eu que estava em MG a trabalho fui para substitui lá.

Cristina a esse respeito discordou. Em suas palavras disse que “Não, porque eu não sou de baixar a cabeça e se tiver algum tipo de preconceito comigo vai ouvir, não há diferença entre os sexos, falo a mesma coisa que eles, posso garantir!”. Maria concordou com esta, afirmando que “não diretamente e nem ofensivo, mas já fizeram brincadeiras com o fato de ser mulher.” Bianca nunca passou por isso “Comigo nunca aconteceu nenhum tipo de preconceito que eu tenha sido vítima. Mas acredito que algumas empresas utilizem o gênero como critério de seleção.” Porém, Paola disse que “sim, já presenciei uma gestora dizer que não contrataria mulher por ser chorona, frágil e não aguentar pressão.”

É incontestável que a mulher avançou na desconstrução de sua submissão ao homem, em todos os sentidos, porém, ainda é nítido para as mulheres que a discriminação existe e se mantém, mesmo que não seja de forma declarada ou verbalizada.

[…] Transcorrido mais de um século após a abolição da escravidão no Brasil  e a plena constituição de um mercado de trabalho assalariado, as análises empíricas disponíveis sobre o mercado de trabalho brasileiro permitem verificar que a discriminação contra a mão-de-obra feminina se encontra amplamente difundida na nossa sociedade. (OMETTO, 2001, p. 175).

Na questão sobre achar que há cargos que devam ser exclusivos para homens as respostas variaram. Raquel disse que “ […] hoje em dia a mulher tem se destacado em muitos cargos que possuem esse estereótipo de “exclusivo para homens”, e muitas vezes se destacam até mais do que os homens”. Ana discordou, afirmando que “[…] alguns cargos devem ser preenchidos por homens”. Esta afirmou ainda que trabalhou com vagas operacionais e que “alguns destes cargos precisam ser executado por homem, como por exemplo, operador de silo, ajudante de rejeito, motorista carreteiro pra viagens longas…” Cristina relatou, buscando se esquivar de ser vista como alguém que descriminaliza a mulher:

Olha não sou preconceituosa, mas tem alguns requer força física, mulher é mais delicada, não foi feita para pegar peso, se sujar tanto… Mas ela também consegue se tiver preparo físico… Então nessa fico na dúvida, mas acredito que não!”

Somente uma das entrevistadas, Maria,  respondeu  que não deva existir cargos exclusivos para homens. Por outro lado,  Paola afirmou que “[…] os homens conseguem se adaptar muito bem a grande maioria dos cargos. São mais respeitados pela equipe, no geral produzem mais resultados pela sua postura.”

Ao abordar em entrevista as vantagens e desvantagens de contratar uma mulher fica visível que o preconceito, embora seja sutil, até na avaliação de mulher para mulher, existe. Raquel afirmou que:

Acho que depende da mulher e da área de atuação. Uma vantagem no geral é que as mulheres tem se mostrado bastante seguras durante entrevistas para determinados cargos e mostram uma facilidade na comunicação e em se relacionar com o próximo, convencendo os gestores de suas capacidades.

Ana respondeu  que “as mulheres são mais zelosas na grande maioria, zelam pelos equipamentos, pelo trabalho. Uma desvantagem que eu percebo é que gera muita fofoca, dependendo do ambiente.” Cristina  afirmou “Vantagem: Habilidade, delicadeza, organização, criatividade, planejamento. Desvantagens: Gravidez, Período Menstrual, TPM, filhos, fofoca.” Maria defendeu a igualdade entre os gêneros, afirmou  “Realmente não vejo diferença entre os sexos, acredito que as vantagens e desvantagens estão muito mais ligadas ao perfil de cada pessoa.”

Paola afirmou que,

[…] as mulheres são mais sensíveis, portanto se encaixam bem em cargos onde a carga profissional não exige tanto. Ao mesmo tempo isso também torna se uma desvantagem, pois as mulheres por demostrarem maior fragilidade não poderão ocupar cargos de maior confiança.

Bianca aponta algo frequente na vida de uma mulher, a prioridade da família  “A mulher consegue cuidar de muitas causas ao mesmo tempo, trabalho, filhos e família, porém, isso também é uma desvantagem por conta da disponibilidade da mulher para a empresa, ela nunca poderá se ausentar para uma viagem de muitos dias por exemplo por conta da família, isso limita muito o profissionalismo da mulher.”

Historicamente a mulher sempre representou o seio da família, nas empresas não é diferente. No senso comum ela representa a pessoa que acolhe, que recepciona, que representa, porém, isto a limita quando poderia assumir outras funções dentro das organizações.

[…] Direcionadas à gestão do capital simbólico das famílias, as mulheres são logicamente levadas a transportar este papel para dentro da empresa, onde se lhes pede quase sempre para coordenar as atividades de apresentação e de representação, de recepção e acolhida (aeromoça, recepcionista, anfitriã, guia turístico, atendente, recepcionista de congresso, acompanhante etc.), e também a gestão dos grandes rituais burocráticos que, tais como os rituais domésticos, contribuem para a manutenção e o aumento do capital social de relações e do capital simbólico da empresa. (BOURDIEU, 2002, p. 59).

Na pergunta sobre diferenças de perfis entre homens e mulheres as respostas confirmam a discriminação imperceptível, mas intensamente presente, Raquel afirmou “Mulher: Mais aberta; se relaciona facilmente com as pessoas; detalhista; organizada. Homens: mais prático e objetivo; mais fechado; menos flexível.” Ana apontou “Perfil Homem – mais ousados. Perfil mulher – cautelosas”. Cristina afirmou  “Mulheres: Organização, sensibilidade e Habilidosa. Homem: Pontual, força bruta, discrição.” Maria discordou “Realmente não vejo diferença entre os sexos.”

Paola nos respondeu da seguinte forma:

Como já dito anteriormente as mulheres são mais frágeis, o homem por sua vez consegue demostrar uma postura de maior confiança e credibilidade. São mais imponentes no trabalho, as mulheres são mais emotivas, agem com a emoção e menos com a razão. A mulher possui uma dependência familiar muito grande, já o homem não possui a mesma carga e conseguem dedicar se mais ao trabalho, focar mais na profissão do que na vida pessoal.

Bianca respondeu “A mulher é mais detalhista e o homem não desenvolve tanto essa competência, por outro lado o homem é mais forte e a mulher mais frágil.”

Nas declarações das entrevistadas é possível perceber que as funções onde exigem maior disponibilidade, força, confiança e liderança são assumidas pelos homens, a mulher ainda é vista como frágil e emotiva.

[…] No nível de gerência, 80% dos cargos são dos homens. Nas chefias o percentual de homens também supera em muito o das mulheres, sendo que no nível de diretoria, não há mulheres. As mulheres também estão em menor número no chão das fábricas e nos cargos funcionais e administrativos. (SERPA, 2010, p. 18).

Na questão sobre diferença de remuneração entre homens e mulheres, Raquel afirmou “Não, a remuneração é a mesma para homens e mulheres.”; Ana afirmou “Sim. Existe diferença na minha empresa.” Cristina negou “Não”. Maria não vivenciou “Nas experiências que eu tive não.” Bianca afirmou “Devido a fragilidade feminina, hoje há uma tendência de os principais gestores serem homens, o que impacta diretamente em relação ao salário. Normalmente as mulheres conquistam os cargos de subordinação aos homens.” Paola abordou uma realidade: “Isso pode variar dependendo do cargo, acredito que os homens ganham mais por ocupar os cargos da alta gestão.”

Uma das maiores exigências das mulheres há muitos anos é equiparação salarial em relação aos homens. Infelizmente ainda é muito inferior a remuneração das mulheres, sejam elas empregadas, trabalhadoras domésticas, autônomas, ou empregadoras.

[…] Em todo o país a renda média dos homens é 76% maior que o das mulheres.  As mulheres ganham menos que os homens, mesmo que tenham o mesmo vínculo de trabalho, trabalham o mesmo número de horas e possuam a mesma qualidade que eles. (SERPA, 2010, p.18).

Na questão onde foi pedido um exemplo de discriminação contra a mulher no processo de seleção as respostas foram vagas. Raquel respondeu “No momento não me lembro de ter vivenciado ou ouvido falar de alguma discriminação que tenha sido significativa no R&S.” Ana afirmou “Já ouvi RH é um setor que não é lucrativo e mais ainda na maioria das vezes conduzido por mulheres”. Cristina negou  “Nunca ouvi falar.” Maria já ouviu gestor dizer “Não contratar mulher pela possibilidade de sair de licença maternidade.”

Paola declarou:

Nos processos de seleção para gestores podemos ver nitidamente essa discriminação. Maior ainda é quando a mulher é casada e tem filhos. As empresas hoje precisam de pessoas cada vez mais focadas na vida profissional, família e filhos exigem muito da mulher, colocando mais uma vez o homem a frente no processo de R&S.

Bianca finalizou “A mulher geralmente é discriminada quando é casada e tem filhos. Isso pode ser um critério de desempate favorável ao homem, que mesmo casado não sofre consequência alguma nestes casos.”

Como apontou Bourdieu (2002), qualquer função que a mulher assuma na sociedade vai se fazer presente no grupo a que pertence, sendo este grupo um coeficiente simbólico negativo; tudo o que elas são ou fazem tem conotação inferiorizada ou negativa.

A tabela abaixo apresenta os dados das respostas:

Identificação e Dados Sócio demográficos
Idade dos entrevistados Quantidade %
De 20 a 25 anos 2 33
De 26 a 31 anos 2 33
De 32 a 36 anos 2 33
Total 6 100
Estado Civil Quantidade %
Solteira 4 67
Casada 2 33
Total 6 100
Profissão Quantidade %
Psicóloga 4 67
Administradora 2 33
Total 6 100
Religião Quantidade %
Católica 2 33
Evangélica 3 50
Não opinou 1 17
Total 6 100
Renda Familiar Quantidade %
De R$2.000,00 á R$3.000,00 1 17
De R$3.001,00 á R$4.000,00 1 17
Acima de R$4.001,00 4 67
Total 6 100
Sobre a Empresa x Empregado
Qualidade nas avaliações de R&S Quantidade %
Excelente 1 17
Bom 5 83
Total 6 100
Relacionamento do entrevistado com a Diretoria Quantidade %
Excelente 2 33
Boa 4 67
Total 6 100
Frequência que se faz R&S Quantidade %
Diariamente 2 33
De duas a quatro vezes por semana 1 17
As vezes 1 17
Uma vez por semana 2 33
Total 6 100
Vagas mais contratadas Quantidade %
Operacionais 5 31
Administrativas 4 67
Técnicas 5 83
Gerencias 2 33
Total 16 215
Empresa contrata mais homens ou mulheres Quantidade %
Homem 6 100
Mulher 0 0
Total 6 100
Sobre o Processo de Seleção
Exercer o R&S satisfaz a entrevistada? Quantidade %
Sim 6 100
Não 0 0
Total 6 100
Existe discriminação de gêneros na empresa? Quantidade %
Sim 6 100
Não 0 0
Total 6 100
Entrevistada já presenciou ou vivenciou preconceito? Quantidade %
Sim 3 50
Não 3 50
Total 6 100
Acredita em cargos exclusivos para homens? Quantidade %
Sim 4 67
Não 2 33
Total 6 100
Existe diferença de remuneração entre Homem e Mulher? Quantidade %
Sim 3 50
Não 3 50
Total 6 100

Os resultados foram satisfatórios para a realização do trabalho, confirmaram nossa suposição de que ainda existe discriminação contra a mulher. Muitos foram os avanços que as mulheres tiveram, mesmo nos dias atuais onde o discurso é de igualdade entre os gêneros é possível mensurar que de uma forma bem camuflada as mulheres ainda são vítimas da dominação masculina.

  • Considerações Finais

O perfil das mulheres atuais é muito diferente do começo do século passado. Elas são chefes de família, trabalham, ocupam cargos de responsabilidade e atuam nas tarefas tradicionais, como ser mãe, esposa e dona de casa.

A Constituição de 1988 possibilitou as mulheres a igualdade dos deveres e responsabilidades como os homens. Segundo Lopes (2005, p. 407), “trata-se da superação de um paradigma jurídico que legitimava declaradamente a organização patriarcal e a consequente preferência do homem ante a mulher, especialmente no locus da família”.

Apesar da evolução e crescimento da mulher dentro do mercado de trabalho, que antes era de domínio masculino, é nítido que a discriminação contra a mulher ainda se faz presente nos âmbitos da sociedade, a mão de obra feminina sofre principalmente desigualdade salarial em relação aos homens. Através do estudo de caso fica evidente que a mulher ainda sofre discriminação nos processos de Recrutamento e Seleção, mesmo que não seja uma manifestação tão visível, mas é uma violência silenciosa e duradoura. As mulheres, mesmo sendo mulheres, tem preconceito contra a mulher, valorizam o homem e suas qualidades.

[…] A divulgação da análise científica de uma forma de dominação tem necessariamente efeitos sociais, mas que podem ser de sentidos opostos: ela pode reforçar simbolicamente a dominação, quando suas constatações parecem retomar ou recortar o discurso dominante (cujos veredictos negativos assumem muitas vezes os contornos de um puro registro comprovante), ou contribuir para neutralizá-la, à maneira da divulgação de um segredo de Estado, favorecendo a mobilização das vítimas.  (BOURDIEU, 2002, p. 67)

Para as mulheres de hoje e do futuro fica o grande desafio de reverter o quadro da discriminação, haja vista, que elas já provaram a sua igualdade no desempenho de funções antes ocupadas exclusivamente por homens, elas já são ótimas motoristas, mecânicas, engenheiras, advogadas, médicas, gerentes, frentistas, seguranças, policiais, enfim, as mulheres são capazes de conquistar tudo que desejam e mudar ainda mais a desconstrução da dominação masculina na sociedade atual, “pode-se facilmente concluir que a inferioridade feminina é exclusivamente social”.(SAFFIOTI, 1987, p. 15)

É um caminho árduo e lento para a desconstrução da imagem fragilizada e simbolicamente negativa da mulher, ações e posturas diferenciadas podem reverter esta realidade, negar que a discriminação exista não levará a igualdade dos gêneros, concluímos que pesquisas como esta e discussões sobre o assunto podem criar alternativas de uma mudança efetiva e duradoura para nossa sociedade.

  • Referências Bibliográficas

BOHLANDER, G. W. Administração de Recursos Humanos. São Paulo: Cengage Learning, 2009.

BOURDIEU, P. A dominação masculina. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2002.

CARVALHO, I. M. V. Recrutamento e seleção por competências. Rio de Janeiro: FGV, 2008.

CONSTITUIÇÃO 1988. Brasília: Senado Federal, Subsecretaria de Edições Técnicas, 1999.

LOPES, C. M. S. Direito do trabalho da mulher: da proteção à promoção. p. 405-430,  2006.

LOUREIRO, P.; CARDOSO, C. C. O gênero e os estereótipos na gestão. Revista de Estudos Politécnicos, vol VI, n. 10, p. 221-238, 2008.

OMETTO, A. M. H. Discriminação contra a mão-de-obra feminina: uma síntese da controvérsia teórica. Revista Impulso, n. 28, v.12, Unimep, 2001.

PROBST, E. R. A evolução da mulher no mercado de trabalho. p. 01-08,  2008.

SAFFIOTI, I. B. H. O poder do macho. São Paulo: Moderna, 1987.

SERPA, N. C. A inserção e a discriminação da mulher no mercado de trabalho: Questão de Gênero. 2010.

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One Reply to “Discriminação Sexual no Processo de Seleção”

  1. Claudio Fabres

    Nossa.. adorei essa materia, parabéns, estou lendo seus textos, muito interessante. Continue assim.